Estradas do Paraná manchadas de sangue




Ao fazer uma avaliação da força-tarefa da Lava Jato, "muitas mortes teriam sido evitadas" se as obras de duplicação das estradas que estavam programadas para o Anel de Integração do Paraná tivessem sido realizadas, teriam salvado vidas.

"Esse talvez seja o caso da Lava Jato em que haja uma relação mais direta, clara, imediata, entre a corrupção e as mortes que ela ocasiona. Muitas mortes teriam sido evitadas se essas duplicações tivessem acontecido do modo adequado" declarou o procurador do Ministério Público Federal (MPF) Deltan Dallagnol.

Para o MPF, o esquema de corrupção que envolveu o ex-governador Beto Richa (PSDB) e concessionárias de pedágio do estado desviou R$ 8,4 bilhões por meio do aumento de tarifas de pedágio do Anel de Integração, e de obras rodoviárias não executadas.

O Ministério Público Federal apresentou denúncia contra Richa e outros 32 acusados na segunda-feira (28).

O ex-governador foi preso na sexta-feira (25) na 58ª fase da Operação Lava Jato. A defesa de Beto Richa disse que ainda não teve acesso à denúncia, mas que o ex-governador não cometeu irregularidades e que sempre esteve à disposição para prestar esclarecimentos.

De acordo com a denúncia apresentada pelo MPF, em 20 anos, as concessionárias se comprometeram a duplicar 995,7 quilômetros de rodovias no início dos contratos, mas até hoje apenas 273,5 quilômetros foram duplicados.

Acidentes nas estradas
Dados da força-tarefa, aponta que o número de mortes nas estradas cai 75% quando as rodovias são duplicadas.

"Nós estamos tratando de 722 km de rodovias que deveriam ter sido duplicadas e não foram", afirmou Dallagnol.

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), houve 1714 mortes nos trechos em que as duplicações estavam previstas em contrato, mas não foram efetivadas, nos últimos cinco anos.
O levantamento aponta que 403 destas mortes foram em colisões frontais.

"E quando a gente fala a quantidade de mortes, são 1714 lares enlutados ao custo da má gestão, ao custo da não observância dos termos contratuais", afirmou o superintendente da Polícia Rodoviária Federal do Paraná, Ismael Oliveira.

Os procuradores da Lava Jato citaram o exemplo de um trecho de 114 quilômetros da estrada que liga Cascavel a Santa Terezinha do Itaipu, no oeste do estado.

"É uma rodovia que ficou famosa nesse tempo por dezenas, centenas de mortes, colisões frontais e que foi nominada como a rodovia da morte", afirmou o procurador do MPF Diogo Castor de Mattos.

Segundo ele, a rodovia era para estar duplicada desde 2004, segundo o contrato original, mas uma ata de reunião em 2003 desonerou a obrigação de duplicar a estrada prejudicando os usuários.

"Quando chega em 2011, tem um acidente de uma van de uns adolescentes de Contenda que iam disputar uma competição de karatê em Foz do Iguaçu. Simplesmente riscou do mapa seis adolescentes entre 14 e 15 anos. E aí o pessoal, 'é, aqui tinha que ter duplicado'", disse Mattos.
Segundo ele, após o acidente, a concessionária do trecho aumentou a tarifa do pedágio em 7% e duplicou 11 quilômetros do trecho.

"Em um trecho que devia ter 140 quilômetros duplicados há 10 anos, aumentaram a tarifa em 7% em todas as praças para duplicar 11 km", afirmou o procurador.

O esquema
As denúncias do MPF sustentam que o esquema de pagamentos de propina pelas concessionárias de pedágio teve início há cerca de 20 anos, ainda no governo de Jaime Lerner e desde então tem se mantido as sombras do poder corrompendo quem assumia o governo do estado do Paraná.

Os investigadores dizem que o método usado para calcular o investimento que as concessionárias deveriam fazer em obras nas rodovias permitiu que as empresas se desobrigassem de concluir obras iniciadas, sob alegação de que já haviam cumprido a meta financeira estipulada por elas mesmas as autoridades que deveriam cobrar as duplicações.

Propina
O MPF afirma que a partir de 1999, ano em que começaram as concessões, as seis empresas responsáveis pelas rodovias do Anel de Integração passaram a se reunir na sede da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) para acordar o pagamento de propinas a agentes públicos, em troca da celebração de aditivos contratuais favoráveis às empresas.

A propina paga em troca dos benefícios, conforme os procuradores, foi estimada em pelo menos R$ 35 milhões.


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